Da Geral

Lembranças e depoimentos feitos por um apaixonado direto da Geral! Comentários sobre futebol e derivados.

terça-feira, agosto 01, 2006

Gre-nal do Inferno

Esse Gre-nal prometia ser morno. Morno não, frio, já que eles vinham com os reservas, e o time do Grêmio ainda está procurando seu equilíbrio. Bem, pode-se dizer que o Gre-nal foi tudo, menos frio.
Na concentração, em frente ao olímpico, muita gente cantando e bebendo. No deslocamento, tudo tranqüilo, e na chegada à beira do Guaíba uma pequena recepção de vaias, mas a brigada estava por toda a parte.
Ao entrarmos no pátio do estádio, fomos encaminhados pelos fundos do gigantinho, e aí houve um pequeno confronto. Alguns seguranças do local começaram a empurrar a torcida para debaixo da marquise do ginásio, batendo em torcedores e se provalecendo pela presença da brigada militar. Quanto mais a torcida adentrava nas dependências do beira-lago, menos policiais tinham.
Alguns metros adiante, dois seguranças batiam em torcedores do Grêmio, quando a torcida foi para cima deles. Nesse momento já não tinham policiais por perto, só seguranças. Bem, nem preciso dizer que os dois seguranças levaram uns sopapos, e que váááários integrantes da torcida começaram a jogar pedras na direção deles.
Eles estavam na divisão do pátio com o estacionamento da EPTC, e muitos carros foram apedrejados no incidente. Alguns jogavam pedras diretamente nos carros.
Enfim chegamos, mas para entrar no estádio levaria mais duas horas. Durante esse tempo, a torcida jogou pedras em vidros, apanhou da brigada, cantou, apanhou da brigada, bebeu, esperou, apanhou da brigada, e quando os portões foram liberados, a brigada passou com os cavalos por cima de todos pela última vez, que é pra mostrar quem é que manda.
Ninguém ali merecia apanhar, mas muitos mereciam ser presos, isso sim. A brigada pegava alguns dos baderneiros, batia neles e soltava. O vivente ficava brabo por ter apanhado e aí, sim, enfrentava a polícia com mais gana ainda.
Entrando no túnel do estádio, percebi um monte de banheiros químicos (ou ecológicos), e a brigada baixando o sarrafo em quem fazia a parede oposta aos banheiros de penico. Eram poucos banheiros pra tanta gente, e muitos se aliviavam no corredor mesmo. A polícia entrou no tal corredor para praticar seu esporte favorito: bater.
A brigada invadiu esse corredor algumas vezes até com seus cavalos, e dois banheiros foram derrubados para que os cavalos não conseguissem passar. Tava tudo molhado e fedendo.
Entramos no estádio, e foi aquela festa linda, que todo mundo já conhece. Torcida pulando alegremente, entoando seus cânticos e hinos.
O jogo ainda nem tinha começado e algumas pessoas invadiram a social do inter, o que causou contra-ataque por parte da brigada. Outro quebra pau. A brigada, mais uma vez foi burra, pois viu os torcedores tentando derrubar o portão. Inclusive tinha dois policiais ao lado deles, e esses nada fizeram. Quando dei por mim, o jogo já tinha começado, e o couro comendo pro lado dos gremistas.
Estádio quase lotado, um monte de colorados quietos e sentados. A Geral sempre de pé, sempre cantando, sempre apoiando. Mal dá pra prestar atenção no jogo.
Um integrante da torcida do Grêmio é preso, sei eu lá por que, mas a torcida bate palma para a polícia e manda o seu recado: “Leva... leva...leva...”. A brigada ‘leva’ o sujeito, que logo depois reaparece misteriosamente dentro do estádio, todo quebrado e arrumando confusão com todo mundo.
Esse mesmo sujeito (e mais uns 15) começou a carregar os banheiros químicos (que o comentarista Cláudio Cabral erroneamente chamou de ‘atômicos’) e atirou o primeiro de uma série para a coréia do estádio. A polícia voltou a ficar junto com a torcida, e de novo viu os banheiros sendo carregados, e nada fez.
Os caras ficaram a noite toda carregando banheiro nas costas, na maior trabalheira.
Quando já tinham um monte de banheiros empilhados, começaram a colocar jornais e papéis picados, e logo após tocaram fogo em tudo.
O fogo começou tímido, e às vezes parecia que apagaria sozinho. A velha brigada companheira mais uma vez assistia a tudo com uma complacência de dar inveja ao Fernando Carvalho.
Quando eu já estava conseguindo me concentrar no jogo, o fogo aumentou, e aumentou, e aumentou tanto, e fez tanta fumaça que tiveram que parar o jogo e chamar os bombeiros. A fumaça era daquelas pretas, desgraçada que impregna em tudo, escurece o céu e não te deixa respirar. Teve momentos em que eu não via nada.
Pra ajudar, a brigada resolveu ‘trabalhar’ mais um pouquinho e voltou a bater em todos que estavam por perto. Alguns brigadianos acompanharam os bombeiros, para lhes dar cobertura, e faziam isso atirando a esmo com balas de borracha na torcida. Essa revidava, atirando qualquer coisa na brigada, e por tabela, nos bombeiros também. Voavam pedras (?!?), rádios, latas de cerveja, guarda-chuvas, pilhas, etc.
A brigada tentou prender algumas pessoas, e um policial resolveu pegar um rapaz que estava de jaqueta azul-escuro, sentado, escondido da chuva de objetos e sem fazer mal a ninguém. Quando ele pegou o rapaz, vários torcedores foram para cima dos policiais, derrubando-os no chão e chutando-os. Com a chegada do reforço, aquilo virou uma verdadeira praça de guerra, com a polícia jogando bombas de impacto e gás, e atirando pra todos os lados. Depois de alguns minutos, tudo ficou mais calmo.
Dos torcedores baderneiros, o mais exaltado era aquele que no início do jogo tinha sido pego e liberado.
Com o fim do fogo, tentei prestar atenção no jogo, mas esse estava muito monótono para aquela noite de tantos acontecimentos. Tudo voltou ao normal, com a torcida do inter sentada e quieta, e a Geral cantando sem parar.
Acabado o jogo, tivemos que ficar parado por meia hora (como sempre acontece) até que os portões fossem abertos para podermos ir embora. Pouco antes de sairmos, os bombeiros se retiraram de campo (surreal) e foram muito aplaudidos pela Geral, inclusive com cantoria (... bombeiros ... bombeiros ... bombeiros ...).
A volta foi tranqüila e a esposa ligou várias vezes para saber o que tinha acontecido, e se eu estava bem. O banho em casa foi demorado, pois a tal fumaça parecia que nunca mais iria sair. Fiquei dois dias com uma gosma preta saindo pelo nariz e revoltado com a repercussão distorcida dos fatos acontecidos no Gre-nal do Inferno.

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