Da Geral

Lembranças e depoimentos feitos por um apaixonado direto da Geral! Comentários sobre futebol e derivados.

sábado, agosto 19, 2006

Ronan é a nossa Maria Eugênia

Ronan é um personagem imaginário criado para servir de contraponto ao gremismo que sempre tomou conta da minha família. Servia (e ainda serve) de referência para tentarmos imaginar como é que os colorados pensam, o que eles sentem e como se comportam.
Tudo começou nas primeiras vezes em que fui ao estádio para assistir ao jogo em si, a dar bola para o resultado. É que no início eu ia a campo para brincar, e tudo era motivo de festa e exaltação. O Grêmio vencia, eu ficava feliz, mas me preocupava com a torcida adversária.
Bem, lá pelos meados da década de oitenta (saudosa década de oitenta), minha família costumava se reunir nas festas de final-de-ano na casa do Vô Pedro, em Torres. Todos felizes, todos bonitos, todos vencedores, todos gremistas. O único colorado que se atrevia a entrar naquela casa era o tio Rogério (casado com a tia Cenira), e isso por que o velho Pedro Cardoso botava o braço por cima dele, e ninguém se atrevia a tocar no intruso. Também tinha algumas tias que diziam ser coloradas, mas sabe como eram as mulheres daquela época, né. Não entendiam nada de futebol. Hoje são todas gremistas, com a graça de Deus e a benção de Portaluppi.
Lá no meio dessas festas, com declarações de amor ao Grêmio e comemorações de títulos, às vezes alguém comentava que se fosse colorado, preferia morrer. Outro dizia que se fosse colorado, simplesmente trocaria de time e viraria gremista, continuando vivo. E um terceiro bradava que se fosse colorado mudaria de país e só assistiria a Fórmula 1.
Brincadeira vai, brincadeira vem, resolvemos criar um amigo imaginário. Ou melhor, um primo imaginário, já que a maioria ali era formada por parentes. Inicialmente o chamávamos de Sofredor.
Uma pessoa fazia uma pergunta, do tipo: “Sofredor, como é torcer para o inter e sempre perder para o Grêmio.” Outro respondia: “É difícil, mas de vez em quando a gente ganha um gre-nal, e daí podemos fazer festa por seis meses, ou até o Grêmio ganhar da gente de novo, o que não demora muito.” E eu inventava outra pergunta: “Mas Sofredor, tu já viu o teu time ser campeão?” E alguém (podia ser qualquer um de nós) respondia, com cara de dor e voz de sofrimento: “Já, já vi sim. Quando eu tava no saco do meu pai o inter foi campeão brasileiro, INVICTO.” Todos ríamos, por que o primo imaginário nunca tinha visto o time dele ser campeão.
Essa brincadeira, além de divertida, era educativa. Sempre que alguém xingava um colorado, outro (geralmente uma prima) advertia que não deveríamos ser grosseiros com o Sofredor, que apesar de colorado, ele era parte da família e deveria ser respeitado. Mais risos por parte de todos. Com o passar do tempo, passamos a chamá-lo também de Reino, pois estava sempre reinando, resmungando.
A brincadeira foi tomando corpo, e a tia Cenira (para a alegria do tio Rogério) resolveu fazer um boneco, para representar fisicamente o Sofredor. Era para ser um boneco feio, com cara de quem perdeu a final de novo, mas até que ficou bonito. A tia usou uns lençóis claros que a Vó-Guida deixou num canto, e uma peruca de boneca. Pronto, estava feito o Sofredor, que por causa dos panos e cabelos, tinha cara de alemão. Para surpresa geral, ele até que era parecido com os ‘pais’ e com a nova ‘irmã’, a Lana, que por coincidência, também era bem clarinha.
Como eu disse, até que o boneco que representaria o Sofredor ficou bonito, apesar de meio desengonçado. Bem, era apenas um boneco, e a tia, apesar de suas habilidades como artesã, não era nenhum Michelangelo.
Daí surgiu um problema. O novo ‘primo imaginário’ estava formado, mas precisava de um novo nome. O Mano sugeriu que fosse Saci, mas ele era muito branco, e além disso, tinha as duas pernas. O tio Adroaldo sugeriu Gérson, mas já tínhamos um Gérson na família, que por sinal é meio desengonçado também. Alguém teve a brilhante idéia de fazer uma sigla. É, uma sigla que representasse tudo o que era o Sofredor para nós. Um nome que identificasse o ‘novo primo’ como um rapaz que estivesse sempre com a gente, mesmo que apenas na nossa imaginação. Que compartilhasse sempre as vitórias do Grêmio, mas nunca admitindo o seu amor platônico pelo tricolor, e sempre apegado ao inter. Assim surgiu o RONAN – Rapaz Onipresente Na Alegria Nossa. Perfeito. Agora o Sofredor tinha corpo e um novo nome. Ronan. Bem nome de colorado.
Da mesma forma em que o Ban-Ban criou a Maria Eugênia, que Cervantes criou Don Quixote, que Michelangelo criou Davi, que Kafka criou a barata e que Gepetto criou o Pinóquio, a minha família criou o Ronan.
Bem, o Ronan vem acompanhando o futebol do Grêmio já faz algum tempo, e sempre que pode, ele toca flauta nos gremistas, tira algum sarro. Essa semana, com a vitória do inter na Libertadores, era de se esperar que ele ‘aparecesse’. Digo aparecesse por que ele andava meio sumido. E não é que ele apareceu mesmo. Me mandou um ‘e-mail imaginário’ falando mal do aviso que eu deixei abaixo para os colorados. Aqui vai a resposta ao e-mail do Ronan.


Resposta ao Ronan:

Oi, Ronan. Feliz, né? Deve estar mesmo.
Realmente não consegui dormir direito aquela noite, pois tinha foguete pra todo lado e gente gritando que nem lôco. Não entendi pra que tanta festa, já que os colorados sempre falaram mal da Libertadores, sempre disseram que os dois títulos do Grêmio não valiam nada.
Não queria entrar no mérito sobre os títulos, mas é meu dever de ‘primo’ alertar sobre alguns erros que escreveste.
Primeiro, o Grêmio ganhou quatro Copas do Brasil, e não três. Eu sei que com tanto título é difícil contar, mas pede uma ajuda pro Pedro, que ele já conta nos dedinhos.
Segundo, a Recopa só não existe no imaginário colorado. É que vocês nunca tinham ganho a Libertadores, por isso não conhecem. Do mesmo modo que não conhecem a Copa dos Campeões. E tu diz que a Recopa não tem importância nenhuma, do mesmo modo que tu falava da Libertadores, lembra.
Terceiro, tu falas em ganhar a segunda Libertadores. Bem, vamos lá, vamos às contas. Se o inter busca esse título a duas décadas, é bem provável que leve mais duas para ganhar de novo. Como tu é uma criação e fruto do imaginário popular, enquanto houver um gremista vivo no mundo existirá o RONAN. Assim sendo, se o inter for campeão daqui a 200 anos, tu ainda vais ‘existir’ para presenciar esse milagre.
Quarto, tu falas em títulos de categoria de base, falas que o inter foi campeão de botão em 1945, foi campeão de bocha em 1766 etc. Isso é importante? Mais importante que a Recopa?
Relaxa, ‘primo’. E aproveita a festa. Até breve, e continue se ‘comunicando’.

Ps. Quem é edinho?!? O filho do Pelé?!?

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