Da Geral

Lembranças e depoimentos feitos por um apaixonado direto da Geral! Comentários sobre futebol e derivados.

quarta-feira, agosto 23, 2006

A Nova Libertadores

Quero tecer alguns comentários sobre a Libertadores, e minha idéia não é tirar o mérito do inter. Campeão é campeão, e pronto. O que vale é faixa no peito e taça no armário. Mas acontece que a Libertadores não é mais a mesma. Ela perdeu muito de suas características originais, que a diferenciavam de qualquer outra competição do mundo. Quem, como eu, acompanhou este torneio nos anos 80 e início dos 90 sabe bem do que eu estou falando.
Primeiro que pra tu chegar lá já era um sacrifício. Hoje em dia até o São Caetano, o Goiás e o Paulista (isso mesmo, o Paulista de Jundiaí) disputam a Libertadores. Imagina um Goiás x Paulista. Até parece jogo de estréia da Copa o Brasil, daqueles em que o visitante ganha por dois gols e nem disputa a partida de volta. Este ano tinha 6 clubes brasileiros (eu disse SEIS) e até a modesta Venezuela contava com 3 participantes. Muita gente. Então, hoje está mais fácil participar da Libertadores.
Em segundo lugar, os clubes estão mais fracos. Não se vê grandes atletas, titulares de suas seleções, disputando a Libertadores. Os craques vão embora antes do clube ter a chance de tentar ser campeões da América. Enquanto isso, nossos melhores jogadores estão disputando torneios europeus.
Lembro bem do Grêmio enfrentando o Boca, o River, o Estudientes. Eram a base da seleção argentina. E o Penharol e o Nacional eram a totalidade da seleção uruguaia. Hoje nem seleção o Uruguai tem mais. Os times da América estão mais fracos, mais pobres. Por isso que só tem dado brasileiro na final, ano após ano.
Terceiro, a Copa Libertadores não é mais tão copeira assim. Explico. Até por que alguém que só tenha disputado as últimas edições do torneio talvez não entenda. O 'bixo pegava', literalmente.
Os jogos eram bem mais disputados, e jogador pra ser expulso tinha que arrancar a perna do adversário, a não ser que estivesse jogando em casa. Por que em casa valia tudo. Gol de mão, impedimento, falta violenta e invasão de campo.
Os gandulas eram recrutados entre os mais fortes da Polícia de Choque (basta lembrar o Grêmio x Palmeiras, em 95) e dominavam mais de uma arte marcial, além de terem quase dois metros de altura. Buscar a bola (que era bom) eles não buscavam, mas afinal, não era para isso que eles estavam ali. Hoje o jogador levanta a camiseta e é expulso. Se expulsa até por reclamação.
Lembro um jogo em que o Renato teve que ir pra zaga e dar um pontapé num uruguaio que tava baixando o sarrafo em todo mundo. Era assim que se resolviam as coisas. Juiz servia apenas para contar o tempo, e olhe lá. Noutra feita, o Grêmio ganhava do Estudientes, lá em La Plata de 3 x 1, pela Libertadores de 83, quando o capitão argentino tirou o apito do árbitro e tentou 'expulsar' jogadores do Grêmio à força. Como não conseguiu, tirou-os de campo abaixo de pancada mesmo. A torcida ameaçava a todo instante invadir o campo, e o juiz não parava de olhar, apavorado, pra arquibancada.
No final, os argentinos empataram o jogo, a base de muito empurrão, soco e com gol de mão (se não me falha a memória, foi com as duas mãos). A torcida foi à loucura, pois o resultado eliminava os argentinos e colocava o Grêmio na final com o Penharol. O bandeira trocou de profissão, e o árbitro nunca mais foi visto.
O próprio inter foi vítima da violência que imperava naquela época, quando teve seu ônibus queimado. Amarelou feio naquele ano. Hoje é essa mamata. O máximo que se faz é jogar foguetes na frente do hotel onde está hospedado o time adversário.
Pra terminar, até o nome da competição mudou. Antes era Copa Libertadores da América, em homenagem a homens que, com sua garra e coragem (e até pagando com a própria vida), livraram os países da América do sul de seus colonizadores. Homens como Simón Bolívar, Dom Pedro I e San Martín, entre outros. Daí vem toda essa gana pela vitória, essa doação, essa entrega, essa sede pela vitória. Perdia-se sangue pelo time. Basta lembrar De Leon.
Hoje temos a Copa Toyota Libertadores, patrocinada e explorada por uma montadora japonesa, que nos usurpa a história e transforma a nossa maior competição num campeonato onde o interesse de investidores pode decidir o rumo do título.
Nada do que eu enumerei serve para depreciar ou diminuir o feito do coirmão. O inter não tem nada a ver com isso. Foi lá e venceu. Como eu escrevi no início, o que vale é faixa no peito e caneco no armário. O Grêmio busca, cada vez mais, o tri da Libertadores, dessa mesma Libertadores soft, e quando conseguir esse feito se orgulhará muito disso.
Mas que não é mais a mesma coisa, ah, isso não é.

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4 Comments:

  • At quinta-feira, 24 agosto, 2006, Anonymous Luis Roberto said…

    Bom, quero tecer meu comentário a respeito do que foi escrito...
    Realmente foi um mério do Inter conseguir alcançar tal objetivo, o qual seja, a conquista da Taça Libertadores da América, independente da mesma ser soft ou não, de haverem times mais FRACOS ou não. O fato é que o Internacioal estava lá, então o que resta pensar, é que se algum OUTRO time não conseguiu almejar tal feito, é porque é mais fraco que o Inter ou até mesmo os outros clubes que disputaram a Libertadores.
    O que me faz relembrar de que, o Internacional não ganhou apenas de um timezinho de copa do Brasil, mas sim do Tri campeão do Mundo, calando mais de 70.000 torcedores em pleno estádio do Morumbi.
    Agora, ser campeão do mundo, não me cabe adivinhar tal feito, pois ainda tem muito tempo pela frente, mas cabe a mim, torcer e defender plenamente este clube, que adotei de coração e alma.
    PARABÉNS INTERNACIOAL, pelo grande feito, pela grande conquista que há muito tempo almejava, e pela brilhante forma como a conquistou, ou seja, por apenas um jogo, não saímos INVICTOS de tal competição, o que nos enche de orgulho, pois AINDA somos o campeão invicto do campeonato brasileiro, e até posso pensar de que seria muito humilhante, para OUTROS clubes, terem que aceitar de que seríamos também, o único clube brasileiro a ser campeão da Libertadores.
    Bom, vou deixar por aqui meus comentários, sei que será bem apreciado pelos senhores que aqui estão lendo...

     
  • At quinta-feira, 24 agosto, 2006, Anonymous André Kruse said…

    gostei do blog, se nao se importar vou colocar um link no meu, ok?

    quanto ao layout é o que quase todos os blogs do gremio usam.

    gostei do post sobre a ida ao gre-nal e este post sobre a libertadores.

     
  • At quinta-feira, 24 agosto, 2006, Anonymous Rodrigo said…

    Antes também era proibido final entre times do mesmo país, e São Paulo e Inter teriam se cruzado nas quartas ou na semifinal - teriam eliminado fácil, porque naquele momento eles estavam melhores e o Tinga estava lesionado.

     
  • At terça-feira, 29 agosto, 2006, Anonymous Hélio Sassen Paz said…

    Jair,

    A fórmula clássica da Libertadores tinha 21 clubes: o campeão e o vice-campeão nacional da última temporada em todos os 10 países filiados à CONMEBOL eram divididos em 5 grupos de 4. Antes da competição, eram sorteados times de dois países por grupo, ou seja: o Grupo 1 podia ser Argentina 1, Argentina 2, Chile 1 e Chile 2 e o Grupo 4 podia ser Brasil 1, Brasil 2, Uruguai 1 e Uruguai 2.

    Classificava-se apenas o campeão de cada grupo, em meio a mais dois confrontos contra o principal adversário na decisão do último nacional, reforçando o respeito e acirrando a rivalidade entre os dois clubes.

    Na fase semifinal, eram dois grupos de 3 clubes, onde o atual campeão da Libertadores entrava em um deles. Apenas o campeão de cada grupo chegava à final.

    Em caso de uma vitória para cada lado ou de dois empates nos jogos de ida e volta, havia um jogo decisivo em campo neutro, com direito a prorrogação e pênaltis caso fosse necessário.

    Embora o Grêmio tenha sido beneficiado quatro vezes em função do título da Copa do Brasil, a Copa do Brasil é uma competição de tiro curto e relativamente fácil. Deveria, a exemplo do que ocorre na Europa, dar uma vaga à Sul-Americana, não mais à Libertadores.

    Já o Brasileirão é um campeonato, não um torneio: o calendário é longo e há equilíbrio técnico e uma fórmula simples, todos contra todos em ida e volta, quem somar mais pontos levanta a taça.

    Dada a necessidade comercial para se manter o caríssimo negócio chamado futebol, concordo com a fórmula atual de 32 clubes, onde o número de representantes por país é determinado pela quantidade de conquistas individuais por país e em função do ranking da CONMEBOL. O critério é, portanto, justo.

    A fórmula da Libertadores é quase idêntica à da UEFA Champions League, exceto na ordem dos critérios de desempate, pois, lá no velho Mundo, o confronto direto vem na frente do saldo de gols e dos gols pró e número de vitórias não é considerado (critério idêntico à fase de grupos das preliminares africanas à Copa do Mundo, diga-se de passagem).

    Na Europa, a final da UEFA Champions League e da UEFA Cup é em um jogo só, em campo neutro. Na América do Sul, devido à falta de condições financeiras, creio que decisões em campo neutro e em um único jogo não teriam muitos torcedores dos clubes postulantes ao título e o público local dificilmente lotaria o estádio.

    Por fim, sou veementemente contra a participação de clubes mexicanos na Libertadores e na Sul-Americana, pois esses clubes pertencem à CONCACAF e não podem decidir o título contra os campeões do resto do planeta porque caso sejam campeões desses toneios continentais.

     

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